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07/03/2013 08h21 - Atualizado em 23/09/2014 14h22

Estudo sobre ostra constata que o molusco pode reduzir doença coronariana

O valor nutritivo do molusco e seu potencial na redução de doenças coronarianas foram constatados durante a pesquisa

Giselda Macena mostra artigo publicado em revista internacional

Diana Monteiro – jornalista

A ostreicultura é uma atividade crescente em Alagoas e tem participado da melhoria da situação socioeconômica de muitas famílias carentes que sobrevivem basicamente do comércio de produtos aquícolas extraídos do Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú/Manguaba.  No Estado, o município de Barra de São Miguel, a 34 quilômetros da capital, tem se destacado como  importante  produtor do molusco no mercado.

Alimento muito apreciado na culinária regional, a ostra de mangue (C. rhizophorae) foi tema de estudo científico realizado pela Universidade Federal de Alagoas, onde se constatou que, além do valor nutricional, o consumo do molusco é capaz de reduzir riscos de doenças coronarianas. O benefício da ostra do mangue para a saúde humana foi constatado na dissertação do mestrado em Nutrição da aluna Jadna Cilene Moreira, sob a orientação da professora Giselda Macena Lira, da Faculdade de Nutrição (Fanut).

A pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Bromatologia da Fanut centralizou-se na avaliação da influência da sazonalidade (inverno e verão) sobre o valor nutricional da ostra e constatou  que durante as duas estações do ano, o alimento apresentou baixos teores de colesterol. O que representa fator dietético importante na saúde humana, relacionado à prevenção de doença coronariana aterosclerótica.

A professora Giselda Macena adianta que os baixos teores de colesterol detectados nas duas estações do ano (48,99 mg/100g no verão e 54,43 mg/100g no inverno) foram muito inferiores aos limites de ingestão diária recomendado pelo National Cholesterol Education Program, 300mg  para indivíduos sadios, e pela 4ª Diretriz Brasileira Sobre Dislipidemia.

“A recomendação da 4ª Diretriz é de uma ingestão de colesterol menor que 200mg/dia, para indivíduos com hipercolesterolemia.  A pesquisa veio preencher uma lacuna na literatura científica sobre esse alimento regional, nunca antes analisado”, destacou.

A importância do estudo científico ganhou espaço na ciência e resultou na publicação do artigo “Influence of seasonality on the chemical composition of oysters (Crassostrea rhizophorae) na revista internacional Food Chemistry, uma das mais importantes do mundo, na área de Alimentos. O trabalho contou com a parceria do Departamento de Nutrição da Universidade de São Paulo (USP).

“A revista está classificada no nível A1 pelo Qualis (ranking de classificação) da Capes, indicando que apresenta elevado fator de impacto, e publica artigos dos mais respeitados profissionais do meio científico da área de alimento”, confirmou Giselda Macena.

“O trabalho não só projeta a universidade, como também o mestrado em Nutrição da Fanut, que a cada dia se consolida na formação de recursos humanos capacitados para o mercado local,” frisou Giselda. Ela informa que a pesquisadora Jadna Moreira, integra atualmente o corpo docente do curso de Nutrição do Cesmac.

Análise científica

A ostra de mangue (C. rhizophorae) consiste em uma espécie estuarina de ocorrência em quase toda costa brasileira. A coleta do molusco para análise científica ocorreu semanalmente durante o verão (de dezembro a março) e o inverno (de junho a setembro), totalizando 40 coletas durante o ano. O trabalho contou com a colaboração dos ostreicultores do município de Barra de São Miguel.

De acordo com a professora Giselda, as análises na ostra de mangue foram realizadas no Laboratório de Bromatologia: composição centesimal (umidade, minerais totais ou cinzas, proteínas, lipídeos e carbohidratos); valor calórico; perfil de ácidos graxos; teor de colesterol e óxidos de colesterol.

“As ostras cultivadas no inverno apresentaram vantagens no aspecto nutricional devido aos mais elevados teores proteícos, somatório dos ácidos graxos poliinsaturados da série ômega 3: Eicosapentaenóico (EPA) e Docosahexahenóico (DHA), percentuais de poliinsaturados da série ômega 6, assim como menores teores de ácidos graxos saturados. Os índices de qualidade nutricional dos lipídeos também apresentaram-se mais favoráveis durante o inverno”, enfatizou Giselda Macena, explicando um dos resultados  da pesquisa.

Ela acrescenta que dentre os benefícios do molusco para a saúde humana destaca-se a presença dos ácidos graxos poliinsaturados ômega 3 e ômega 6, por serem  imprescindíveis ao funcionamento adequado do organismo. “Segundo a literatura, a família ômega 3 apresenta importante papel no desenvolvimento e na manutenção de diferentes órgãos, principalmente do cérebro, podendo ser útil na prevenção e no tratamento de diferentes patologias, tais como: distúrbios cardiovasculares, psiquiátricos, neurológicos e dermatológicos”, frisou a professora.

Também no inverno detectou-se que o ácido graxo poliinsaturado Docosahexahenóico (DHA) correspondeu ao dobro quando comparado aos resultados do verão, o que eleva os benefícios nutricionais das ostras cultivadas na Barra de São Miguel. Para a pesquisadora, a constatação epidemiológica de que o consumo de pescado é capaz de reduzir riscos de doenças coronarianas situa a demanda deste alimento nos países em desenvolvimento, não apenas como alternativa alimentar de alto valor nutritivo, mas ainda de consumo de um alimento funcional abundante.

“Além da comprovação científica da ostra de mangue para a saúde humana, o que pode incentivar a sua produção e consumo, os resultados poderão proporcionar uma alternativa para as indústrias pesqueiras no aproveitamento tecnológico deste alimento, agregando valor ao produto com melhoramento de renda dos pescadores artesanais do nosso Estado”, opinou a pesquisadora Giselda Macena.