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10/07/2017 15h26 - Atualizado em 11/07/2017 13h16

Projeto de extensão capacita agricultores de assentamento em Branquinha

‘Colhendo Bons Frutos’ integra nutrição e agroecologia para a inclusão socioeconômica da comunidade

Projeto acontece no Assentamento Zumbi dos Palmares

Letícia Sant’Ana - estagiária de Jornalismo


Contemplado entre mais de mil iniciativas de todo o Brasil, o projeto Colhendo Bons Frutos: nutrição e agroecologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), vem desenvolvendo um trabalho interdisciplinar no Assentamento Zumbi dos Palmares (AZP), no município de Branquinha, com o objetivo favorecer a inclusão socioeconômica da comunidade por meio do cultivo e do beneficiamento de produtos agroecológicos. Como parte dessas ações, os pesquisadores promoveram, no mês de junho, o primeiro módulo do Curso Básico de Apicultura para jovens agricultores.

Numa parceria com o Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater), as 20 vagas foram preenchidas por membros da comunidade e de outros assentamentos. A capacitação foi ministrada pela zootecnista Dinayse Almeida, técnica da Emater.

“A ideia é despertar, principalmente nos jovens, o gosto pela atividade e mostrar a eles que dá certo”, afirmou Almeida. Durante o curso, os agricultores ganharam o material de apiário e conheceram as normas para instalação e funcionamento das casas de mel, onde são processados os produtos apícolas. A outra parte da capacitação foi prática. Os participantes visitaram a casa do mel em União dos Palmares, e sugeriram, de acordo com as recomendações passadas no curso, um local para a instalação do apiário. 

A apicultura foi escolhida pela comunidade por ser uma alternativa rentável e um meio de manter os jovens no campo. “Alguns já trabalham com isso e eles gostam da apicultura por conta do desafio e do certo risco da atividade. A agricultura é um processo lento e o jovem quer algo mais imediato e concreto. Com o mel, quando feito de forma adequada, o retorno financeiro é mais rápido”, contou a professora da Faculdade de Nutrição (Fanut) Maria Alice, que coordena o projeto.

Além da capacitação em parceria com a Emater, o projeto Colhendo Bons Frutos realizou, no ano passado, um curso de Agroecologia no AZP para incentivar a produção em base agroecológica. “Essa é nossa intenção: estimular outros agricultores a produzirem sem agrotóxicos, porque muitos ainda utilizam. Isso vem de uma herança da cana-de-açúcar”, afirmou Alice. Durante a capacitação, os agricultores aprenderam técnicas de compostagem, o adubo feito a partir de resíduos de alimentos, para não depender de insumos comprados. Também aprenderam a lidar com as pragas de forma natural, sem utilizar veneno.

Mulheres no campo

As ações desenvolvidas pelo projeto são importantes também para a inclusão socioeconômica das mulheres do assentamento. “As mulheres não tinham direito a nada, tudo era no nome dos homens. Quando vinha algum projeto, elas não recebiam. Os homens dizem que eu queria tirar a esposa deles de casa. Enfrentei muita coisa e comecei a chamar outras mulheres para se organizar”, contou a presidente da Associação de Produtoras Agroecológicas da Zona da Mata de Alagoas (Aproagro), Maria Lucilene, que mobilizou as agricultoras para fundar uma associação onde elas pudessem ter autonomia e reconhecimento. De acordo com o estatuto da Aproagro, os homens só podem participar se suas esposas também participarem. “Não é só para mulheres, mas quem toma as decisões somos nós”, reforça Maria.

Na Associação elas produzem polpas e doces com as frutas que não conseguiam ser vendidas e eram descartadas. Os produtos são comercializados na Feira Orgânica. “O projeto melhorou nossa condição de vida. Tanto ajuda o agricultor como o pessoal da cidade, levando um alimento saudável”, afirma a agricultora.

Na perspectiva de melhoria do produto vendido na Feira, o projeto realizou um trabalho de rotulagem com o apoio das alunas de Nutrição, produzindo a informação nutricional de seis doces no laboratório de técnica dietética na Ufal. Segundo a coordenadora, apesar do doce não ser algo interessante de se estimular o consumo, é um produto que faz parte da renda das mulheres do campo. “Faz parte da cultura nordestina, é uma alternativa rentável e respeitamos isso”, completa. O trabalho está em fase de conclusão.

Mais ações

O projeto começou em 2014, sem financiamento, com ações desenvolvidas apenas na Feira Orgânica da Ufal. Em setembro de 2015, o Colhendo Bons Frutos: nutrição e agroecologia foi contemplado no Prêmio Santander na categoria Universidade Solidária e com o recurso as atividades se expandiram.  

Após reuniões, os colaboradores do projeto, junto com a comunidade do AZP, começaram a identificar quais eram os problemas a serem resolvidos, a fim de atender às demandas da Feira Orgânica e promover a alimentação saudável na comunidade universitária. “A Feira tinha pouca diversificação, poucos agricultores levavam seus produtos para lá e precisávamos melhorar a qualidade do que chegava”, conta a coordenadora.

A partir dos encontros, algumas ações foram desenvolvidas pelo projeto, beneficiando o assentamento e, consequentemente, ampliando a oferta de produtos na feira da Ufal. Uma delas foi a compra e instalação de equipamentos para melhorar a irrigação, feita pela comunidade, sob a orientação de um agrônomo.

Para diversificar a oferta de vegetais folhosos, como o alface, o projeto contou com a parceria do Instituto Federal de Alagoas (Ifal), Campus Satuba, que ofereceu as mudas e ensinou as agricultoras a plantarem. “Com as orientações, elas criaram um pequeno viveiro e o trabalho foi crescendo. Antes elas compravam em Arapiraca para poder plantar aqui”, explica Alice. 

Outras ações são pensadas para o futuro, como a produção de banana passa e laranja desidratada. “No momento não temos o equipamento para desidratar, mas é uma ideia porque nessa região tem muita banana e laranja. Essa produção vai ser boa para atender o pessoal mais fitness”, comentou.

Pesquisas

Paralelamente ao projeto de extensão, estão sendo desenvolvidas duas pesquisas interligadas que tratam da saúde nutricional dos assentados. As atividades dos dois projetos são executadas por professores da Fanut, de Serviço Social e de Agroecologia.