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10/10/2017 12h45 - Atualizado em 11/10/2017 17h26

Projeto prepara familiares e vítimas de acidentes para cuidados em casa

As ações são realizadas com pacientes da Unidade de Emergência Doutor Daniel Houly, em Arapiraca

Reunião para promover acolhimento, escuta e capacitação dos familiares

Thamires Ribeiro – estagiária de Jornalismo

Voltar para casa após receber alta hospitalar com a notícia de que terá incapacidades permanentes não é uma situação fácil, tanto para o paciente, quanto para seus familiares. Pensando nisso, a professora Ana Paula Nogueira, em conjunto com alunas de diferentes cursos da área de saúde do Campus Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas, desenvolveu o projeto Preparando a volta para casa através do Programa Círculos Comunitários de Atividades Extensionistas (Proccaext). Também participam da extensão enfermeiras, médico, fisioterapeuta, psicóloga e assistente social.

De acordo com a coordenadora Ana Paula Nogueira, o projeto tem como objetivo planejar a alta hospitalar dos pacientes vítimas de acidentes de trânsito que ficaram com sequelas permanentes, promover segurança e tranquilidade para os familiares cuidadores desses pacientes no momento da alta hospitalar, além de capacitá-los para os cuidados no domicílio. Também são propósitos da extensão promover o trabalho em saúde interdisciplinar, acelerar a saída do paciente do hospital e garantir a continuidade do tratamento.

A coordenadora justificou a escolha da Unidade de Emergência Doutor Daniel Houly, de Arapiraca, para colocar a extensão em prática. “Os acidentes de trânsito configuram um importante problema de saúde para o munícipio de Arapiraca e região, sendo uma das principais causas de morte e incapacidades temporárias e permanentes para as vítimas sobreviventes”. E complementou explicando os critérios de atendimento: “Os acidentes com motocicletas geram lesões graves que causam incapacidades e deficiências, gerando grande impacto na vida das vítimas e de seus familiares. Buscamos incluir as vítimas que possuem maior grau de incapacidade, ou seja, aquelas vítimas que serão fortemente dependentes para a realização de atividades de vida diárias, como caminhar, trocar de roupa, tomar banho, escovar os dentes, alimentar-se, entre outras. Necessitando assim, dos cuidados de outras pessoas”.

Os resultados da tese de doutorado da professora Nogueira, intitulada Acidentes de trânsito com adultos e suas consequências após a alta hospitalar, também motivou o surgimento do projeto, pois de acordo com ela, evidenciou que os cuidados no domicílio geravam insegurança e ansiedade aos familiares. E que esses sentimentos são agravados pela desinformação sobre a gravidade das lesões, prognóstico, continuidade da assistência e pela vulnerabilidade social da maioria.

“Uma parcela importante das vítimas, após a alta, necessita de equipamentos hospitalares no domicílio,[a exemplo de] cama hospitalar, cadeira de rodas, colchão pneumático e necessitam da continuidade de cuidados, visto que geralmente estão em situação de total dependência para a realização das atividades de vida diária, necessitando de cuidados de enfermagem, reabilitação, apoio psicológico e social. Para agravar a situação, a maior parte das vítimas e seus familiares vivem em condição de alta vulnerabilidade social”, declarou a coordenadora do projeto, ressaltando que é imprescindível a assistência profissional emocional e social no período de reabilitação.

Ações do projeto

Já foram atendidos pelo projeto 30 pacientes portadores de incapacidades ou deficiências, e cerca de cem familiares passaram por capacitações, sendo orientados e acolhidos para realizar o cuidado no domicílio. Segundo a organização, já foram realizadas visitas domiciliares nos munícipios de Anadia, Coité do Nóia, Arapiraca, Igací, São Sebastião, Palmeira dos Índios, Craíbas, Traipú, Penedo, Olho d’Água Grande, Dois Riachos, Carneiros, Mata Grande e Inhapí.

Na prática, a extensão é dividida em várias etapas. Inicialmente é feita a identificação da condição de saúde atual do paciente, discussão semanal da referida situação, construção do diagnóstico visando a promoção da alta hospitalar, identificação e seleção dos principais familiares cuidadores, realização da visita domiciliar para diagnóstico do local e de vulnerabilidade social. Após isso, são feitas visitas às secretarias municipais para articular as redes de serviço e dar continuidade à assistência ao paciente, elencar os procedimentos que farão parte da capacitação dos cuidadores e realizar este processo.

Segundo a professora Ana Paula, quando um paciente recebe alta, a família adquire um relatório interdisciplinar construído pelos profissionais e estudantes envolvidos no projeto. Nele, contém todo o histórico do paciente no hospital, e as orientações sobre os serviços que os familiares devem buscar após a alta. Também é entregue uma cartilha produzida pelos estudantes, contendo orientações sobre os cuidados a serem realizados no domicílio, os sinais de alerta para perceber e quando devem buscar por assistência.

Estudantes como parte fundamental

Um dos aspectos muito importante do projeto é o estímulo ao trabalho interdisciplinar, partindo de estudantes de graduação dos cursos de Enfermagem, Medicina, Psicologia e Serviço Social do Campus Arapiraca. De acordo com a docente Ana Paula Nogueira, as estudantes realizam as capacitações com os familiares, participam de reuniões para o planejamento das ações com pacientes e suas famílias, discutem, juntamente com a equipe, o quadro do acidentado, se reúnem com os parentes e cuidadores das vítimas, visitam os leitos para acompanhar a evolução do caso e participam das visitas às residências onde haverá a continuidade do tratamento após a alta.

Lilka Marques, estudante de Enfermagem do Campus Arapiraca e participante do projeto alegou que esse tipo de trabalho, feito de forma interdisciplinar, leva uma melhor qualidade de vida a todos os envolvidos. E revelou que é assim que ela quer ser como profissional . “Tem sido um crescimento pessoal e profissional, visto que tenho contato com diferentes situações de vulnerabilidade social ou não, e isso me leva a refletir sobre a questão dos acidentes de trânsito e os diferentes tipos de violência. Mostra que ainda há muito que fazer a respeito das causas externas para evitar futuras vítimas”, contou a estudante.

Para a coordenadora do projeto, o Preparando a Volta para Casa tem resultados positivos para os pacientes e seus familiares, mas também para a equipe que realiza a extensão. “Acreditamos que o projeto trouxe benefícios para a equipe de profissionais que atua no hospital onde ocorrem as ações, bem como para os estudantes envolvidos no projeto”, constatou Ana Paula Nogueira.

Bons resultados

A professora responsável pela extensão declarou que a atividade tem contribuído de maneira fundamental para a qualidade da assistência prestada às vítimas de acidentes de trânsito e seus familiares.  E que a aprovação no Proccaext, fortaleceu as ações do projeto e estimulou a entrada de acadêmicos de diferentes áreas, proporcionando uma formação interdisciplinar da saúde. “O projeto permitiu que a equipe de profissionais envolvidos trabalhasse por meio do projeto terapêutico singular, discutindo semanalmente a situação de saúde do paciente inserido no projeto. Desse modo, houve a oportunidade dos profissionais dialogarem de maneira interdisciplinar”, relatou.

De acordo com a estudante Lilka Marques, com as ações do projeto, é perceptível uma maior segurança, tanto dos pacientes quanto dos familiares em desenvolver cuidados de saúde. “A aceitação por eles é incrível e indescritível, eles se sentem tão acolhidos e especiais em participar do projeto, que isso nos motiva cada dia mais”, relatou.

“Essas ações têm contribuído para a promoção de uma alta segura, prevenção de reinternação hospitalar, fortalecimento da contra referência e para o desenvolvimento do trabalho interdisciplinar”, declarou com satisfação a coordenadora do projeto.