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Sistema de Cotas contribui para inclusão social dos afrodescentes

“A sistematização das cotas por gênero, formação na escola pública e etnia é única no país”, afirma a presidente do Neab
22 de Maio de 2012
Sistema de Cotas contribui para inclusão social dos afrodescentes

Clara Suassuna, presidente do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Ufal

Lenilda Luna - jornalista

O sistema de cotas da Ufal deverá ser avaliado pelo Conselho Universitário (Consuni) em 2014, mas desde já, as reflexões sobre se essa reserva de vagas tem contribuído para a democratização do acesso à Universidade estão se intensificando no meio acadêmico e na sociedade.

Para Clara Suassuna, professora do curso de História e presidente do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab), não restam dúvidas dos benefícios individuais e coletivos do programa de ações afirmativas. “Ainda temos que fazer ajustes e ampliar o programa, mas podemos garantir que as cotas têm proporcionado a oportunidade de acesso ao ensino superior para jovens que, de outra forma, não teriam nem ao menos colocado a Ufal como meta”, ressalta a historiadora.

As cotas foram aprovadas na Ufal, em 2003, e implantadas no vestibular de 2004, para entrada em 2005. Já foram formados 192 cotistas, dos 4.018 que tiveram acesso à Ufal por esse sistema. “Em quase todos os casos, os alunos relatam serem os primeiros da família a cursarem a universidade”, diz Clara Suassuna. A presidente do Neab destaca que essa conquista não é só do aluno, mas influi em toda a família. “Com um estudante de baixa renda chegando à universidade, os parentes começam a enxergar a possibilidade de melhoria de vida. Cai por terra a ideia de que aluno de escola pública não tem chances no ensino público superior”, ressalta Clara.

Cotas na Ufal

O sistema de cotas da Ufal funciona da seguinte forma: a cada seleção, que a partir do ano passado passou a ser pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 20% das vagas são reservadas aos candidatos que se declaram afrodescendentes e que cursaram o ensino médio integralmente na escola pública, ou com bolsa integral em escola privada. A questão de gênero também é contemplada e este é um critério inédito da Ufal, da reserva para os afrodescendentes, 60% das vagas vai para as mulheres e 40% para os homens.

Essa organização das cotas tem sido consultada por várias universidades que desejam implantar o programa. Este ano, até mesmo o Ministério da Educação pediu informações à Comissão Permanente de Vestibular (Copeve) para usar o sistema da Ufal na inscrição on-line para o Enem. “Isso significa que, apesar da necessidade de ajustes, estamos no caminho certo. Por isso, as cotas devem ser referendadas pelo Consuni em 2014”, afirma Clara.

Segundo a pesquisadora, a entrada de cotistas está crescendo a cada ano. Na última seleção pelo Enem foram 918 cotistas. “Ainda é pouco, em um universo de 21 mil estudantes, mas já representa um avanço. É preciso garantir essa possibilidade aos alunos que enfrentam dificuldades de um ensino deficiente na rede pública e, por isso, não teriam condições de disputar com estudantes de escolas privadas, que contam com mais condições de acesso à informação e muitas vezes fazem cursinhos preparatórios para o vestibular”, coloca Clara.

Os alunos das cotas são apoiados por uma série de programas de permanência. Eles tem direito à bolsa de estudo, Residência Universitária e Restaurante Universitário. “São formas de manter esses alunos na universidade até o fim do curso, já que muitas vezes eles não têm condições para bancar a alimentação, passagens e custos com material de estudo”, explica Suassuna.

Em geral, as médias dos estudantes cotistas são altas. Eles se esforçam para superar as deficiências na formação e acompanhar o conteúdo das aulas. “Nos cursos de exatas, temos aulas de nivelamento que ajudam esses estudantes a preencher as lacunas do ensino médio e acompanhar o que devem aprender na graduação. Ainda precisamos fazer isso nos cursos das áreas de Humanas e de Saúde”, propõe a professora de História.

Segundo Clara, as cotas ainda precisam de mais adesão dos professores do ensino médio. “Todos os anos, a equipe da Ufal vai às escolas públicas explicar para os estudantes como funcionam as cotas e estimulá-los a participar da seleção. Seria mais fácil se os professores da rede estadual estivessem mais informados e atentos para ajudar os alunos nesse processo”, explica ela.

Resistências

O sistema de cotas ainda sofre muitas críticas e resistências, na academia e na sociedade. Alguns destes questionamentos acabam parando na Justiça. Foi o que aconteceu quando quatro alunos, não optantes das cotas, foram desclassificados por pouco, no vestibular de 2004, e resolveram mover uma ação coletiva contra as cotas, porque consideraram que a reserva de vagas prejudicou a entrada deles na universidade. As cotas estavam sendo implantadas pela primeira vez nesse ano. Dos alunos que moveram a ação, três estão cursando Medicina, por decisão judicial, enquanto esperam a conclusão do processo.

Agora, em fevereiro de 2012, saiu a decisão do Pleno do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) sobre a questão. Os desembargadores decidiram pela constitucionalidade do sistema de cotas raciais da Ufal. Em entrevista à assessoria do TRF, o desembargador Bruno Carrá, relator do processo, declarou os motivos da decisão. “A dívida histórica brasileira com os que ostentam a cor negra, sendo sua causa associada ao processo escravista para o qual concorreu diretamente o Estado brasileiro, pode ainda ser cientificamente demonstrada por meio de informes estatísticos de ontem e de hoje”, ressaltou.

Bom exemplo

Mais do que estatística, o exemplo dos estudantes cotistas ilustra a importância das cotas. Em alguns casos, o acesso à Ufal representou uma mudança de vida. Foi assim para a merendeira de escola municipal, mãe de nove filhos, Dijânia Correia, que, aos 41 anos, após ter concluído o supletivo, fez o pré-vestibular comunitário gratuito, se inscreveu pelas cotas e foi aprovada em Ciência da Computação.

Ela contou que o exemplo de amigos a animou a tentar. “A minha amiga fez o cursinho do programa Conexões de Saberes e entrou para Geografia, na Ufal. Em 2010, busquei informações, fiz o cursinho e mesmo trabalhando como merendeira e cuidando de nove filhos, não faltei a uma aula. O sistema de cotas também me ajudou na aprovação”, disse a estudante.

E para aumentar as alegrias, vários amigos do grupo de estudo de Dijânia foram aprovados no mesmo período. “Da nossa turma, que se reunia todas as tardes na biblioteca do Acauã, teve o Alejandro, que passou em Engenharia Civil, o Franklin Oliveira, que conseguiu uma bolsa numa universidade particular, e o Bernardo, que passou para Geografia, na Ufal,” comemora a universitária.

“Minha vida mudou muito depois que eu entrei na Ufal. Sei que estou o início da conquista de um sonho e que ainda tenho um longo caminho pela frente, mas a visão das pessoas sobre mim já é bem diferente. Na escola onde trabalho e no bairro onde moro, todo mundo se surpreende quando digo que estudo Ciência da Computação na Ufal”, conta a merendeira.

Além disso, a conquista de Dijânia influenciou toda a família. Depois que ela passou no vestibular, o filho mais velho, José Elson, de 21 anos, que trabalhava num mercadinho, deixou o trabalho para estudar. O marido da universitária também voltou a estudar. Ele ganhou um novo ânimo com a aprovação da esposa na Universidade Federal de Alagoas. “Eu sei que sou um estimulo para todos eles, por isso não posso desanimar. Às vezes penso que não vou conseguir entender Geometria Analítica (risos) mas encaro essas disciplinas como mais um desafio na vida”, conclui a universitária.

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