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08/04/2015 16h33 - Atualizado em 14/04/2015 13h47

Entre as horas mal dormidas e aquelas perdidas pelo caminho, está a Ufal

O terceiro calouro dessa série apresenta em seu diário o frio na barriga, o estresse da viagem de ônibus e a boa vibe que sente nas andanças pelo campus. Mateus Magalhães é estudante de Jornalismo, filho de comunicólogos e escritor nas horas vagas. Premiado pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária da Imprensa Oficial Graciliano Ramos em 2014, seu livro de estreia, “Quem tabelar com Toni ganha um fusca”, reúne cerca de trinta crônicas e sairá ainda no primeiro semestre de 2015. A partir de hoje, ele tem a oportunidade de compartilhar conosco a poetização do seu cotidiano.

Na última noite, a que precedeu a minha primeira ida como aluno à Universidade Federal de Alagoas, o frio na barriga que eu senti não foi de medo e nem de dúvida, mas de pura e deslavada ansiedade. Explico: um ano antes, após fazer o Enem por teste, consegui a aprovação para o meu curso dos sonhos. O mesmo que iniciaria no dia seguinte: Jornalismo. Corri atrás, pedi pra mãe, bati na porta do pai e acendi vela, na vã esperança de que alguma alma viva aparecesse disposta a entrar na justiça por mim e me fizesse, por milagre, aparecer com um ano de antecedência no campus da Ufal. Não rolou. “Você ainda é muito jovem, não tem a cabeça necessária”, eles disseram. E estavam certos. Pouco tempo depois, notei a importância de ter cursado o ensino médio até o fim, mesmo que o ano de 2014 tenha servido de incubadora para o meu nervosismo.

Eu estudava no Contato, que ficava a cinco minutos de caminhada do meu prédio. E naquela noite de domingo, a última noite, eu me preparava psicologicamente para subir num ônibus velho, daqueles que ameaçam desmontar ao passar dos 10 Km/h, pagar os absurdos R$ 2,75 da passagem e esperar, sentado ou em pé, por mais de sessenta minutos. Eu estava nervoso, mas não por inexperiência: já em algumas oportunidades eu tinha ido à minha nova universidade, duas vezes no ano anterior, para a festa da Secom e o debate dos candidatos ao governo. Era surreal pensar que agora eu pisaria lá como estudante.

O sonho de ser jornalista já é um antigo anseio do meu peito. Desde muito moleque, por ter os pais atuando na área de comunicação, conheci o dia a dia da profissão e tive a certeza de que queria aquilo pra mim. Meu lance é a área de Esportes. Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, além dos cronistas inesquecíveis do extinto site impedimento.org, foram decisivos para essa escolha. Além de escrever, quero trabalhar com o rádio. Desde sempre, me alertaram do sucateamento do curso da Ufal, e me aconselharam a expandir meus horizontes e buscar outras universidades. Entretanto, essa foi uma ideia que eu nunca consegui aceitar: noutras cidades não há o carinho de mamãe e nem o CSA jogando aos domingos. Eu estava, e ainda estou, disposto a encarar todas as dificuldades que o curso me possa apresentar, de punhos cerrados e cara fechada. Até aquele momento da vida, eu não me acomodara, e sigo sem pretensão de fazê-lo.

Na cama, já debaixo das cobertas, eu rodava. Na mente, os pensamentos explodiam: “E a turma, vai prestar? Vai ter gente boa?” A dos meus pais era maravilhosa, e nela eles fizeram alguns dos melhores amigos da vida. Tudo o que eu queria era que o mesmo se desse comigo. Depois de longa peleja, consegui cair no sono, lá pelas 4h, mas fui acordado às 7h, com mamãe batendo na porta do quarto e avisando que estava saindo para trabalhar. Sentei na sala e esperei o tempo passar. Depois de muitos giros dos ponteiros, tomei um banho, almocei rápido, enfiei algumas tralhas na bolsa e a mim mesmo numas roupas e me larguei pro ponto. Pouco depois, veio embalado no vento o imenso retângulo de metal. Eustáquio Gomes -Iguatemi, que será meu inseparável companheiro durante os próximos quatro anos. Subi e, ao tirar do bolso as moedas da passagem, fiz uma rápida conta no computador mental e cheguei à conclusão de que, naquele ritmo, faliria inevitavelmente. Na semana seguinte, fui à Transpal do Tabuleiro dos Martins parar tirar a carteira do Bem Legal. Me irritou muito o fato de que só se pode fazer isso naquela central, quando há muitas espalhadas pela cidade; uma delas, até, na própria Ufal. Vida que segue. Esperei na fila, debaixo de telhas de brasilit, numa verdadeira estufa onde a única água possível era cuspida por um bebedouro de caneca que parecia saído dos anos 80, e me atrasei para aula. Vida que segue. Naquela segunda-feira, a viagem de ônibus passou voando.

A primeira semana, como já era do meu conhecimento prévio, era a dos estudantes de comunicação. E rolariam uns eventos muito interessantes no auditório da Reitoria (mesas-redondas, oficinas e grupos de discussão) durante quatro dias e uma festa, na sexta-feira, pra fechar com chave de diamante os acontecimentos. Ao desembarcar no meu destino, fui recebido pelos sorrisos dos veteranos que eu já conhecera um mês antes, ao efetuar a pré-matrícula. Eles foram super simpáticos e receptivos, e isso me deixou muito feliz. Lá, conheci pessoalmente os meus colegas de sala, que eu já conhecera virtualmente, e me satisfiz. As pessoas não poderiam ser melhores. Os velhos e os novos são todos pessoas de bem e de coração enorme, de gentileza sem restrição.

No primeiro dia, corremos todos para confirmar a matrícula no Severinão. Exceto uma menina, que, aparentemente, não sabia que isso era necessário. Ao descobrir, uma semana depois, que perdera a vaga no curso, desapareceu para todo o sempre, como que sugada num vórtice espaço-temporal.

A Reitoria é linda. Tomada pelo verde e pelo barulho ensurdecedor das cigarras que só vivem 24 horas (por isso são tão escandalosas). Na semana, que correu bem e cheia de risadas, passei muito tempo sentado do lado de fora do auditório, admirando. Essas coisas me agradam. A Secom foi um sucesso, organizada por gente boa, e a festa de sexta-feira – junta da calourada de Humanas, no ICHCA – foi a cereja do bolo. Confraternizei com velhos e bons amigos, calouros e veteranos, de outros cursos e me aproximei dos meus companheiros de bloco. Ao contrário da maioria dos outros cursos, só conhecemos nossos professores na segunda semana. E, já no primeiro dia, o primeiro dos docentes faltou. De Português para comunicação, e ele (ela, na verdade) só apareceu na terceira semana, quando a Fale resolveu ceder. Valeu a espera, a professora, apesar da pouca idade, é incrível. Uma das melhores, inegavelmente. Além da matéria dela, pago Sociologia, Teoria da comunicação, Psicologia, Antropologia e Introdução à Metodologia. Estou tendo as aulas no bloco 13. As salas são razoáveis. Não há ar condicionado e os ventiladores não fazem diferença. É quente, mas vento bate, posto que o bloco se ergue ao lado de muitas árvores e plantas. Já estou atolado de trabalhos, tenho que me acostumar rápido.

A Ufal era sonhar acordado, até o dia em que roubaram uma companheira de sala dentro do campus, quando ela caminhava em direção ao ponto de ônibus. Um homem a abraçou e encostou o cano do revólver na barriga dela. Foi como um choque de realidade, e ali eu passei a notar tudo que estava errado. Descobri que a segurança é apenas patrimonial, e que, mesmo se um dos agentes tivesse presenciado o assalto, nada poderia ter sido feito. Mas está aí o grande lance de ser universitário: você não está lá apenas para estudar, comer pipoca doce e ir embora no primeiro ônibus. A parte boa é descobrir toda uma vida que pulsa ao redor da academia, e que você é célula indispensável para a evolução dela.

Estes dias mesmo, ao fim da aula, vi o sol se pôr deitado na grama, detrás da Edufal. Uns meninos das redondezas jogavam bola num daqueles campinhos. Foi lindo. E é assim que eu espero que sejam todos os dias dos próximos quatro anos. Lindos, como um pôr do sol ou um golaço de racha.